segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Hoje não tem texto ou história. Desculpe te decepcionar, mas hoje sou apenas eu escrevendo palavras na tentativa de esquecer meus pensamentos. E o que mais haveria de estar em minha mente?

Pra não deixar meus leitores imaginários na vontade, deixo aqui uma música.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Vida, Morte e as Mulheres que as Causam - parte 2

>> PARTE 1 AQUI

Gosto do verão porque em dezembro o céu tem mais estrelas. Fumar um baseado e olhar para o céu, acredite, é o barato dos baratos, mas se ele não tem estrelas nem nuvens, perde o brilho. Tempos frios me deprimem, ar seco, vento. Mas em dias como esse, dias de verão, dias quentes, nuvens, estrelas, garotas de biquíni, Natal, verão! em dias como esse, com tudo mais claro, é mais fácil de sorrir, sem ter que forçar expressões felizes em fotos de família ou com os amigos, para não mostrar o quão danificados somos por dentro. Imagem é tudo. It's all in the mind.
Bam me levou até sua casa, me fez ficar curioso a respeito do maldito bilhete. Seus pais estavam trabalhando, tínhamos a casa só para nós e eu pensava, porquê esse vagabundo nunca me falou que tinha um ninho de amor? Pelos dezesseis, tudo para um garoto são garotas, é a idade em que tudo acontece, e ter um lugar livre, de graça, sendo que na sua casa mora você, seus pais e mais dois irmãos, divididos em dois quartos, tendo que escutar a privada do vizinho toda vez que tentar dormir - cara, ter uma casa livre para mim era um sonho!
- Ei, Bam-bam! Vamos chamar umas amigas para virem aqui, cara, hehehe. Entra no MSN aí, brother!
- Não cara, que isso, meus pais vão descobrir, os vizinhos vão ver e contar e gravar e colocar numa conta do YouTube, cara, meus pais vão me expulsar de casa, vou me tornar um mendigo, um ator fracassado, vivendo de esmolas, olhando nos olhos de cada pessoa que passar por mim, todas expressando dó, todas, no horário de almoço, indo até o metrô, voltando do metrô, comendo lanches do McDonald's, me deixando as batatas. Não, mano, meus pais vão descobrir!
- Calma, cara, calma! Que paranoia! Beleza, mas pensa na ideia... Hehehe.
Como você pode perceber, ele tinha um certo medo de ser fracassado. Jogamos videogame, refletimos um pouco sobre as garotas do colégio e nada sobre a porra do bilhete. Comecei a ficar sem paciência, logo ameacei dá-lo uma surra. Bam não levou fé, e então começou a contar uma de suas histórias para me distrair, e ele sabia muito bem fazer isso.


Era um janeiro como todos os outros, o único mês do ano em que 90% das pessoas tem realmente fé - ano novo, vida nova, essa mentira que nos persegue a cada época, um tico de esperança que em fevereiro já se foi, quando você percebe que a única coisa que realmente mudou foi o último número da data escrita em seu caderno. Fora isso, o passado e o presente são praticamente a mesma coisa. 
Fui viajar com meus pais para Angra dos Reis, lindas praias com lindos mares e lindas mulheres, mas fazia tempo que não éramos mais uma família de verdade; todas as fantasias que tínhamos assistindo a filmes hollywoodianos já não pareciam fazer sentido. Mesmo assim, fingíamos ser uma família feliz e curtíamos o sol e as garrafas de vinho. Tinha tudo para ser uma ótima viagem, quando na segunda noite o tempo pareceu mudar. Meus pais brigavam, estávamos todos bêbados, e eu, cansado daquela merda, fui dormir para poder aproveitar a ressaca do dia seguinte. Quando acordei, cara, estava tudo tremendo, o rádio alertava sobre possíveis deslizamentos em decorrência da chuva e dos otários que construíam casas em barrancos propícios para deslizamentos. Possíveis é o caralho! Olhei pela janela e tudo estava um caos, pessoas gritando e correndo tentando salvar seus pertences superficiais ao invés de tentar salvar suas vidas. Corri a casa procurando meus pais, só encontrei minha mãe dormindo, acordei-a e perguntei onde estava meu pai. Ela disse que ele tinha voltado para São Paulo, voltaria no dia seguinte porque eles tiveram a pior briga de todas, e estávamos sozinhos. Ele tinha levado o carro, e o  cenário lá fora parecia o apocalipse. Saímos correndo em busca de abrigo, ou alguém que nos ajudasse, liguei para o 190 e as linhas estavam todas congestionadas. Foi a noite mais frustrante de toda a minha vida, achei que ia morrer, cara, eu realmente achei que tudo ia acabar naquele dia, com minha família desestruturada, e com uma ressaca filha da puta!
Certamente não acabou, encontramos uns bombeiros que nos levaram para casa. Ao chegar, minha mãe não achava seu celular. Vasculhou as gavetas e naquela busca inconstante encontrou uma fita de vídeo, vulgo, o vídeo mais traumatizante de toda a minha vida.
Ela não quis me mostrar na hora, quando meu pai chegou eu os ouvi gritando e não entendi muito do que estava acontecendo, o GTA me consumia, e mal percebi meu pai ir embora e minha mãe me dar um beijo e partir logo em seguida. Fui procurar uma ferramenta para concertar o videogame, e acabei por encontrar também a fita de vídeo com o bilhete junto. Coloquei em nosso videocassete antigo, estava curioso, e acredite, eu nunca deveria ter feito isso. Não, não era a a fita do chamado e nenhuma garota me ligou avisando que eu tinha sete dias de vida, mas era algo mais traumatizante ainda.
Era um filme pornô, com meu pai estrelando. Tudo bem, todo garoto acharia seu pai foda por ter feito um cineprivê, alguns até bateriam uma enquanto assistem. Mas esse tinha uma peculiaridade em especial, era um filme pornô... gay! PORRA! PORRA! As imagens estão voltando na minha cabeça. CARALHO! CARALHO! Não, essa não foi a palavra certa. BUCETA!
Desliguei a televisão depois dos primeiros trinta segundos e fui ler o bilhete. 


"Amor,
Agora eu entendo o porquê do vibrador.
Fui tomar um ar, volto em duas semanas. Cuide bem do Esteban.

Simone"

Agora sim tudo tinha acabado, e isso sim era a porra do apocalipse.


O pior fato que traumatizou Esteban, foi que era um filme recente. Talvez seu pai estivesse morto há anos depois de um casamento sem sonhos e precisava reviver coisas novas.
Caralho, a quem eu estou enganando? Nada é desculpa para gravar um filme gay. Dê seu cu, MAS NÃO FILME!

Muita informação por hoje.

Fim do primeiro capítulo.