Percebi que eu estava fora do estereótipo de garoto ideal - filhinhos de papai que praticam bullying longe dos olhos de seus pais, que têm celulares e iPods, palmeirenses e são-paulinos, fanáticos desde criança, que no futuro herdarão grandes negócios e terão sucesso na vida apenas pelo berço em que foram criados - logo no meu primeiro dia na escola. Era um garoto franzino, do centro paulista, acostumado à fazer das ruas sujas campos de futebol, as praças-moradias de mendigos e drogados, bolsista num colégio de mauricinhos podres de ricos cujos pais cagavam dinheiro e as mães limpavam suas bundas fedidas para recuperar algumas moedas.
- Benzinho, erga um pouco mais o seu traseiro, estou vendo uma moeda de 50 centavos entalada. Vou pegar o desentupidor e depois comprar uns doces para a Babizinha no mercado.
- Ande logo com isso, mulher! Tenho outras famílias para alimentar! - a inconveniência dos meus pensamentos vinha desde pequeno.
Conheci Esteban também naquele primeiro dia. Rodeado de garotos e garotas, ele contava histórias fascinantes sobre os shows de rock que assistia com seu pai. Eu, que ouvia os discos dos The Smiths do meu pai escondido, e assistia na televisão todas aquelas bandas que criticavam o sistema e imploravam pelo amor de uma mulher com seus penteados punk, cabelos no olho, loiros, cabelos espetados e roupas rasgadas, ficava imaginando como era um estádio lotado de pessoas desse jeito, vibrando ao som da banda que ensurdecia os ouvidos e fazia sangrar os tímpanos, com suas melodias que mais pareciam barulho, o que fazia daquelas músicas algo assombroso e fenomenal.
Descobri com o evoluir de nossa amizade que Esteban era mesmo um contador de histórias, e aumentava-as para torná-las mais emocionantes, claro, como todos os contadores de histórias. Certo dia, quando eu comia meu pão-com-presunto diário no intervalo e tomava um mupy de morango, observando os garotos mais velhos jogando pingue-pongue e os da minha classe apostando seus lanches quem chegaria primeiro ao outro lado do pátio, veio até a mim com um de seus contos.
- Escute, Léo! LÉO! Quer ouvir uma história?
- Você não me contou o final da última ainda, Bam.
- É verdade, mas escute, Léo, meus pais brigaram ontem.
- Meus pais discutem todo dia.
- Eu sei, mas ontem foi pior, tipo, pior, entende? Escute, ontem eu estava jogando videogame, GTA, cara, esse jogo é genial! e o controle parou de funcionar. Você tem um Playstation? Eu estava no ápice do jogo, você sabe como é quando alguma coisa trava no meio da partida, não sabe? Dá uma raiva! Fui até a gaveta do meu pai procurar uma ferramenta para concertar, e achei um bilhete meio estranho.
(...)

Muito bom! Os detalhes criativos deixam a história envolvente e é como se eu conhecesse os personagens.
ResponderExcluirAmei a parte do The Smiths, pois me lembra 500 dias com ela.
E espero que não esteja errada sobre a fonte de inspiração para o nome Esteban (baixista da fresno).
E não posso evitar de dizer que seu pão com presunto é pura nostalgia pra mim... É quase como se eu estivesse relendo Misto-quente do Charles Bukowski (:
De qualquer forma ficaria feliz de saber mais sobre o "bilhete meio estranho". Espero que não demore pra postar mais...
E é claro que não posso deixar de dizer: PARABÉNS!!
¡Gracias!
ResponderExcluirNa realidade, o Bam não tem muito a ver com o Fresno, não, mas todas as influências são bem vindas, e Bukowski é uma grande inspiração!
Estarei escrevendo mais histórias, obrigado aos comentários positivos.
Paz.